A moradora da zona rural de Tanque Novo, no sudoeste da Bahia, Bianca Borges, procurou a redação do Sudoeste Total nesta quinta-feira (14) para relatar o drama vivido pela família diante das sucessivas crises de agressividade da filha adolescente, diagnosticada com transtorno do espectro autista, deficiência intelectual e epilepsia. Segundo a mãe, apesar dos relatórios médicos e dos pedidos de internação emitidos por especialistas, ela não consegue vaga para tratamento psiquiátrico da jovem. De acordo com Bianca, a situação voltou a se agravar nos últimos dias e a família teme pela segurança dentro de casa. Em áudio enviado à reportagem, a mãe afirma que já buscou ajuda no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), no Hospital Municipal, no CAPS e na Secretaria Municipal de Saúde, mas recebeu a informação de que não há vagas disponíveis para internação de adolescentes. “Já procurei sim, a Secretaria da Saúde, o hospital, o CAPS. Eles alegam que não tem vaga no hospital por ela ter 16 anos de idade. Eles falam que não conseguem a internação dela”, relatou. Segundo Bianca, na quarta-feira (13), a adolescente teve mais uma crise intensa dentro da residência da família, localizada na comunidade de Macacos, zona rural do município. A mãe contou que a filha tentou agredir familiares e chegou a lançar um bebê contra a parede, mas a criança acabou atingindo uma fruteira e não sofreu ferimentos graves. “Ontem mesmo ela pegou, tacou o neném aqui na parede. Graças a Deus não pegou na parede, pegou na fruteira da minha sogra. Tentou agredir minha sogra, minha cunhada. Ela tá muito fora de si”, afirmou. Bianca relatou ainda que vive em constante estado de alerta e precisa esconder objetos dentro de casa por medo de que a filha ataque os irmãos durante as crises. “Às vezes eu nem durmo de medo de ela fazer alguma coisa com os outros irmãos”, disse. Documentos médicos encaminhados à reportagem mostram que a adolescente é acompanhada há anos por equipes do CAPS de Tanque Novo e já passou por internação psiquiátrica em Salvador, em 2022, quando permaneceu cerca de três meses hospitalizada. Conforme o relatório hospitalar emitido pelo Hospital Universitário Professor Edgard Santos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a paciente apresentava episódios recorrentes de heteroagressividade, agitação psicomotora e impulsividade. Os relatórios médicos apontam diagnósticos relacionados ao transtorno do espectro autista, deficiência intelectual, epilepsia e alterações no desenvolvimento neuropsiquiátrico, associados à prematuridade extrema e hipóxia cerebral ocorrida no nascimento. Ainda conforme os documentos, a adolescente faz uso contínuo de medicações antipsicóticas e anticonvulsivantes, mas continua apresentando episódios graves de agressividade, automutilação e descontrole comportamental. Em relatório emitido pelo CAPS de Tanque Novo em 21 de outubro de 2025, a psiquiatra responsável solicitou “internação psiquiátrica urgente”, destacando que a paciente apresenta “tentativas de matar irmão com faca”, além de diversas lesões provocadas por automutilação. Outro relatório médico informa que a adolescente possui dificuldades severas de socialização, não consegue realizar atividades básicas sozinha, apresenta crises convulsivas frequentes e comportamento impulsivo, além de alterações cognitivas importantes. Bianca afirmou que a internação realizada em Salvador, há quatro anos, trouxe melhora significativa para a filha, mas que atualmente ela não possui condições físicas e emocionais para acompanhá-la novamente em um tratamento prolongado fora da cidade. “Ela já ficou internada uma vez em Salvador. Fiquei três meses lá com ela. Ela saiu calma, saiu bem, só que agora voltou tudo de novo. Eu tô com problema de saúde, tenho um bebê também com suspeita de autismo. Eu só quero um tratamento para ela”, declarou. A mãe contou ainda que, durante uma das crises recentes, a adolescente acumulou lixo dentro de um quarto da residência e depois incendiou as próprias roupas. “Ela pegou as roupas dela todas, jogou no meio do fogo. Não deu tempo da gente pegar”, relatou. Até o momento, segundo a família, a adolescente continua sendo atendida emergencialmente durante as crises, com intervenções do SAMU e medicações para contenção, mas sem definição sobre uma vaga para internação psiquiátrica especializada. A Secretaria de Saúde informou para Bianca que irá colocar o nome da paciente na regulação da Sesab. Bianca Borges informou que, caso algum profissional de saúde, instituição ou autoridade queira ajudar no acompanhamento e tratamento da filha, pode entrar em contato diretamente com a família pelo WhatsApp: (77) 99960-3878. “Se algum profissional puder me ajudar com tratamento, quero que atenda ela. Não quero dinheiro, eu quero tratamento. Porque não adianta pedir dinheiro se não tem tratamento. Só quero minha filha bem. O importante pra mim é o tratamento. Tenho esperança de um dia ter aquela amizade novamente de mãe e filha”, finalizou Bianca. A reportagem do site Sudoeste Total pediu um posicionamento oficial da Secretaria de Saúde do município, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.