O religioso Ir. Edmundo Dourado Silva, deverá deixar a cidade de Dom Basílio, sua terra natal, no início do mês de agosto de 2024. Esta não é a primeira vez que ele se desloca dessa maneira. Ir. Edmundo já esteve em outras missões em diversos lugares, inclusive no Chile. A informação foi compartilhada por ele mesmo no último domingo (21), em entrevista exclusiva ao site Sudoeste Total. Durante a entrevista, o religioso abordou diversos temas, incluindo seus serviços prestados na Paróquia São João Batista, a fé nos dias atuais, tecnologia, relacionamentos, princípios e outros assuntos relevantes.
Vida Religiosa
Ir. Edmundo Dourado Silva conta que iniciou sua vida religiosa ainda na adolescência. Aos 13 anos, já frequentava o Centro Diocesano de Livramento de Nossa Senhora, participando dos encontros vocacionais acompanhado pelos padres da Diocese e também pelos religiosos Estigmatinos.
“O Padre João Batista Rêgo, que era pároco em Dom Basílio, conduziu todo o processo de acompanhamento. Posteriormente, o Padre João Batista foi transferido para a Paróquia de Bom Jesus, em Barra da Estiva, e, a pedido do Bispo Dom Hélio, foi solicitado o início do seminário menor. Iniciamos essa etapa com cinco jovens. Naquela época, era permitida a abertura de seminários na etapa do ensino médio. Fiquei por um período de três anos sendo acompanhado pelo Padre João Batista, mas ao mesmo tempo sentia que algo me faltava para realizar vocacionalmente, no entanto, não tinha muito claro, pois o contato com outras congregações religiosas quase não existia. Na época, estava trabalhando no Hospital Suzy Zanfreta, em Barra da Estiva, a religiosa irmã Clara Meggionaro, superiora da comunidade local, percebendo que eu tinha outras habilidades que não identificava como Diocesano, apresentou-me a algumas Congregações das quais ela tinha conhecimento e com seus respectivos carismas. Ir. Clara pediu que eu escrevesse cartas para algumas casas de formação por ela indicadas, com o objetivo de fazer um processo de acompanhamento e discernimento vocacional. A primeira carta a chegar foi da Congregação Sagrada Família de Nazaré, na qual faço parte até o presente momento. O Padre Raimundo Alves Ferreira era pároco no Sul do Brasil. Ele me respondeu que estaria vindo à Bahia para presidir a celebração dos 25 anos de vida religiosa de irmã Clara. Tivemos nosso primeiro encontro e ele propôs que estava disposto a me acolher no Seminário de Fortaleza”, relatou Ir. Edmundo.

Conforme diz, na época, era necessária uma carta de recomendação do Bispo, que na época era Dom Hélio Pascoal.
“Vim, conversei com Dom Hélio e apresentei a necessidade de fazer essa experiência. A princípio ele disse não, pois a diocese precisava muito de padres e caso eu fosse para a Congregação, a diocese fecharia as portas. A princípio fiquei chateado, pois não saberia o que responder para o reitor do seminário de Fortaleza. Eu insisti, que queria fazer uma experiência na vida religiosa para descobrir qual realmente era a minha vocação, mas ele não aceitou e disse que não daria a carta de recomendação. Eu então avisei ao Padre Reitor e comuniquei que o Bispo não daria a carta. Mas o Reitor disse que eu fosse assim mesmo, pois, mediante as recomendações da religiosa Ir. Clara, estava disposto a me acolher. E fui para Fortaleza em 1987, fazer minha experiência. Foi uma bela experiência na casa de formação Mundo Jovem. Sempre que voltava de férias, fazia questão de visitar o Bispo, Dom Hélio, porque tínhamos um vínculo afetivo. Ele resmungava um pouco, mas compreendia a situação. Depois, ele percebeu que eu estava no caminho certo e até incentivava a manter-me perseverante. Em Fortaleza, concluí o ensino médio, parte na Escola João Piamarta, que pertence à Congregação, e concluí na Escola Municipal Filgueiras Lima. Depois, fiz especializações em áreas da Catequese, oferecidas pelo ITEPE (Instituto Teológico Pastoral). Em seguida, fui para o Noviciado no Sul do Brasil, o ano canônico, na cidade de Ponta Grossa (PR). Um ano de noviciado, um ano afastado das coisas do mundo. Um tempo que nos orienta ao desprendimento, até o relógio eles tiravam de você, para dizer que precisávamos nos situar na experiência da escuta e na experiência de Deus. É um ano de experiência, de conhecimento, da vida do fundador, da descoberta da própria vocação, para que você possa dar uma resposta coerente”, disse.
De acordo com o Religioso, o ano de noviciado foi concluído com oito jovens noviços, dentre eles alguns Chilenos e Brasileiros. Em seguida, foram feitos os primeiros votos, chamados votos simples, onde se professa os votos de pobreza, obediência e castidade.
“Ali você permanece na obra da instituição, chamado Instituto João XXIII, trabalhando com crianças e colocando em prática o carisma do Fundador “crianças e jovens pobres no mundo do trabalho”. O Instituto é um orfanato que acolhe crianças e jovens abandonados, que presenciavam violência entre familiares e também sofriam violências e outras eram retiradas das ruas. Eram quase 200 alunos internos, que eram cuidados pelos religiosos. Dentro da própria instituição, tinha a escola, oferecendo ensino básico e médio. Para os mais avançados, a instituição buscava benfeitores padrinhos que pudessem ajudar a custear a faculdade para os que já haviam concluído o ensino médio. Em Ponta Grossa, concluí a etapa de Teologia pela Universidade Católica do PR. Permaneci em Ponta Grossa por 4 anos, e depois recebi a primeira obediência para a cidade de Matelândia, próxima a Foz do Iguaçu, assumindo a escola Agrícola. Apesar do nome, era um internato, e ali também tínhamos Paróquia. Permaneci ali por dois anos, onde já havia concluído a etapa dos quatro anos de vida religiosa, momento em que o candidato pode fazer o pedido para os votos Solenes, os Votos Perpétuos, onde você professa definitivamente como consagrado na vida religiosa. No dia 24 de novembro de 2001, solenidade de Cristo Rei do Universo, professei solenemente os votos perpétuos, na presença do Superior Geral Padre Enzo Turiccieni, e com a presença de inúmeros sacerdotes da Congregação e da diocese de Foz do Iguaçu. Ali também estavam presentes membros da minha família, minha mãe Antônia Dourado (de saudosa memória), minha irmã Terezinha, junto com seu esposo Agenor, tios e tias. Como irmão consagrado, recebi como obediência trabalhar no Seminário Menor de Matelândia, onde permaneci por 8 anos como formador. Com a visita canônica do Superior Geral em dezembro de 2005, recebi a segunda obediência para ser transferido à comunidade do Chile, especificamente em Talca, na sétima região de Maule”, acrescentou.
Passagem pelo Chile
Já no Chile, irmão Edmundo dedicou seu trabalho na Escola João Piamarta, onde atuou por dez anos. Conforme conta, era uma escola com quase 3.300 alunos, e também na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, tendo aulas durante o dia e, à noite, prestava serviços na Paróquia. Ele relata que permaneceu lá até janeiro de 2015, época em que perdeu sua mãe, e então retornou para o Brasil, com autorização do seu superior para dedicar aos cuidados de seu pai. Ir. Edmundo enfatiza, no entanto, que as adaptações no Chile não foram fáceis.
“Eu tinha a opção do Chile ou da Itália, mas na Itália seria mais delicado, pois meus pais já estavam idosos. Só avisei minha família, inclusive, depois que já estava no Chile. A alimentação, o espanhol, enfim, tudo era muito novo. O primeiro desafio foi a comunicação. Lá, a comunicação é muito exigente. Até as crianças, mesmo de forma simples e ingênua, corrigem você. Demorei dois meses para conseguir falar pelo menos o básico em espanhol. O resto foi aprendido na convivência. Na comunidade religiosa, convivíamos com brasileiros, chilenos e italianos, mas só falávamos em espanhol. Até na volta para o Brasil, houve uma dificuldade muito grande. Trocava a língua às vezes. A alimentação também é bem diferente. Eles não comem arroz nem feijão todos os dias. Tinha carne e outras variedades de pratos típicos da região. “Além de renunciar meu país, pelo menos arroz tem que ter todos os dias”, revelou Irmão Edmundo.
Ele elogia muito o país em muitos aspectos, inclusive quanto ao cumprimento das leis e à formação acadêmica em educação em tempo integral.
“Se um aluno está fardado fora da aula, pego fora do estabelecimento educacional, a Polícia recolhe o aluno e o leva até à família e procura saber o que aconteceu. No mês de setembro, mês da Pátria, eles celebram o mês todo. Toda casa você encontra uma bandeira do Chile hasteada. O baile típico é o baile da cueca, onde o galo tenta conquistar a galinha. Tomar uma cerveja na rua, na praia, não é permitido. Só pode tomar bebidas em locais fechados e que não tenham presença de crianças. As leis são bastante rigorosas. Aprendi a gostar do Chile. Os chilenos são acolhedores. Quando eles se apegam, é como se fôssemos irmãos verdadeiros deles. Mesmo depois de nove anos após ter deixado o Chile, eles mantêm o contato e dizem ter saudades e que esperam o retorno em uma próxima oportunidade. Eles são bons. A única coisa que não tenho saudades foi o terremoto. No dia 27 de fevereiro de 2010, o Chile enfrentou um terremoto de 8,8 graus na escala Richter, seguido de um tsunami com ondas de mais de 3 metros. O fenômeno foi o segundo mais forte da história do país e deixou um saldo de 525 mortos e centenas de feridos, além de um rastro de devastação. Foi na madrugada o ocorrido e a experiência é pavorosa. E após isso, um cenário de guerra. Faltando água, energia, alimentos, havendo saques em supermercados, toque de queda, sem rede de comunicação, busca de conhecidos entre escombros, foi terrível”, disse.
Por que é conhecido como irmão Edmundo?
A diferença, conforme explicada, reside exatamente na vida religiosa em comparação à vida clerical. “O Padre Diocesano permanece na Diocese e não faz os votos de obediência, pobreza e castidade. Ou seja, são chamados a viver a castidade pelo ministério e obediência ao seu Bispo. Outra diferença é que permanecem sempre na Diocese, estão sob a Jurisdição de um Bispo. No nosso caso não, nós pertencemos a uma Congregação Religiosa. Temos um superior geral, o sucessor do Fundador. Toda uma estrutura e um estilo de vida diferente do Diocesano. Os religiosos se definem pelos conselhos evangélicos, os votos de pobreza, obediência e castidade e sempre vivem em comunidade. A nossa obediência é ao sucessor do Fundador. Atualmente, o sucessor de São João Batista Piamarta, no caso, o Padre Benedetto, que seria como um Bispo, ou seja, há obediência ao Superior. E nós não permanecemos muito tempo em uma comunidade. O máximo que permanecemos são 5, 6 anos, depois somos transferidos. Na Congregação também temos aqueles que fizeram a opção pelo ministério ordenado, mas sua primeira identidade é a vida consagrada. Como carisma, trabalhamos em escolas, orfanatos, obras sociais e paróquias. O irmão consagrado não opta pelo ministério ordenado, ele assume outras funções, seja na paróquia, na educação, dentre outras especialidades voltadas para a formação das crianças e jovens, e administrativas. O Padre Diocesano exerce o ministério ordenado, assumindo a paróquia e outras funções estabelecidas pelo seu Bispo.”
Nova missão
Irmão Edmundo sairá novamente de sua terra, Dom Basílio, para uma nova missão. Ao que tudo indica, segundo ele, está previsto que isso aconteça até o final do mês de julho. “Quando cheguei em Dom Basílio em 2015, logo após o falecimento de minha mãe, eu me dediquei aos cuidados do meu pai. Somos uma família reduzida. Só tenho uma irmã. Nos primeiros meses que cheguei, o Padre Rinaldo Silva Pereira estava Pároco em Mucugê, mas também estava dando assistência à paróquia de São João Batista em Dom Basílio. Diante dessas dificuldades, o Padre Rinaldo me chamou à casa Paroquial, a pedido de Dom Armando Bucciol, me apresentando a proposta e um pedido de ajudar na Paróquia para assistir melhor às comunidades das zonas rurais, nas celebrações de exéquias e também na Paróquia, visto que o Padre nem sempre estava na Paróquia. Quando ele me fez a proposta, eu disse, não posso assumir a princípio, sem antes consultar meu superior geral, porque vim a Dom Basílio não para cuidar da Paróquia, mas sim do meu pai. Porém, o superior geral concedeu essa autorização, porque para mim seria algo bom, estar me ocupando com algo que no dia a dia eu já fazia. Tínhamos um bom relacionamento. Padre Rinaldo, mais que amigo, é um irmão, acolhedor e recíproco. Sentávamos sempre antes de terminar o mês para elaborar a agenda do mês seguinte. Fazíamos um rodízio sempre para que todas as comunidades fossem assistidas. Fazíamos sempre um apanhado antes de tomar as decisões. Foram sete anos. Em seguida, o Padre Rinaldo foi transferido para a Paróquia de Rio de Contas e chegou o Padre Júlio Cesar, e já não tinha mais aquela necessidade, pois havia um padre fixo na Paróquia dando assistência às comunidades, sem precisar sair para outras Paróquias. Ainda assim, continuamos dando continuidade, até chegou o momento que ele assumiu definitivamente, e eu fiquei com algumas outras celebrações, caso fossem necessárias, e assim ficou até o momento. Mas com o falecimento do meu pai ocorrido em 18 de novembro do ano de 2023, minha permanência em Dom Basílio já não tem mais sentido. Ainda que tenha a questão de afeto, de carinho, e sei que é recíproco”, declarou.
Ainda segundo conta, depois desse período, a congregação pediu que ele retornasse à missão.
“Não está 100% definido. Havia uma proposta do superior para que fosse para a Itália ou assumisse a casa de formação do Seminário de Filosofia de Fortaleza, casa de onde também foi formando. “Então estou concluindo essa etapa onde também dediquei esses dois anos, da gestão do prefeito Roberval, na coordenação pedagógica do Colégio São Gaspar Bertoni, Povoado de Itapicuru. Vai ter essa interrupção. Ainda está por decidir, mas creio que será o Seminário de Fortaleza, onde temos o Seminário, a escola e também a Paróquia”, revelou.
Passagem pela Itália
Mesmo de forma modesta, Irmão Edmundo também esteve na Itália. Segundo o Religioso, a passagem foi muito rápida e durou pouco mais de um mês. “Foi o período da Canonização do nosso fundador, realizada em 21 de outubro de 2012, na qual Papa Bento XVI o proclamou santo para a Igreja Católica Romana. Tivemos a oportunidade de visitar a Itália e a França, especificamente Milão. Visitamos as Terras de São Francisco de Assis, mas não foi uma morada, apenas uma visita às obras da instituição, incluindo a fundação, onde está o túmulo do fundador. Foi apenas um período de convivência, não de moradia. Tivemos a possibilidade de estarmos próximos do Papa Bento naquela ocasião. Foi uma experiência belíssima.”
Esfriamento do amor do ser humano em Cristo
Sobre esse assunto, Irmão Edmundo foi muito profundo ao se pronunciar: “Quando um ser humano tem esfriamento com relação a Cristo, ele está passando por um esfriamento de si mesmo, do amor próprio, porque Cristo se manifesta a partir do momento em que você se ama, permite ser amado, e abre horizontes para descobrir que Cristo se manifesta no cotidiano da sua vida. Cristo se revela nos acontecimentos da sua história, da sua experiência, no seio da família. Quando nos afastamos de Deus, abrimos as portas para Satanás; ou seja, tornamo-nos suscetíveis ao mal em nossa vida. A busca por Deus é necessária não ocasionalmente. Não é como ir à farmácia comprar medicamentos quando está doente, ou ao supermercado comprar alimentos porque está com fome. É necessário se alimentar todos os dias, cuidar do bem-estar todos os dias. E com Cristo? Quando você sente a necessidade de estar com Ele, de silenciar, de buscá-lo? É no dia a dia. Porque quando você enfrenta dificuldades, você aprende a conviver com elas e percebe que precisa de Cristo. E você precisa d’Ele não apenas nos momentos de dificuldade, mas no cotidiano, quando busca na oração, no silêncio, no seu quarto, no seu diálogo pessoal, quando conversa com as famílias de Deus. Quando você ama alguém e fala dessa pessoa, você fala com entusiasmo, com propriedade, com identidade. Mas quando vai falar de Deus, você pergunta a alguém: ‘Quem é Deus?’ E a pessoa se sente pobre, não sabe o que dizer sobre Deus. Porque você tem pouco relacionamento com Deus, conhece pouco a Ele, não tem intimidade com Ele. Você não vai falar com Deus com palavras bonitas, com palavras eloquentes. Você vai falar com Deus do cotidiano. Vivemos numa agitação frenética. Não temos tempo, não queremos ouvir. As redes sociais já oferecem a opção de acelerar a comunicação, com áudio. Não temos tempo para ouvir, acolher o outro, visitar, estar com o outro. E hoje, com as redes sociais, nossas amizades, se já eram reduzidas, agora são ainda mais. Não temos mais amigos como antes, para conversar, discutir problemas pessoais, passar o tempo juntos, jogar bola. Era bom estar junto. Passamos tempo diante de uma tela. Esse espaço foi substituído por uma rede social, onde não olhamos mais nos olhos dos amigos. Não há mais contato. O contato é importante, o abraço, o toque da mão é importante. Quando acontece uma tragédia, é apenas mais uma. Não temos mais a sensibilidade de nos colocar no lugar do outro, da família que sofre, de estar com aquela família. Aprendemos isso durante a pandemia de Covid-19. Ouvíamos os números, era apenas mais um número. Parece que algo já não nos assusta mais. Estamos perdendo a humanidade, e se estamos perdendo a humanidade, estamos nos distanciando de Cristo, deixando de permitir que Ele fale aos nossos corações. Todas essas coisas nos afastam de Cristo”.
Ainda dá para acreditar na humanidade?
“É possível acreditar. Enquanto há vida, há possibilidade de mudanças, de transformação. De você retomar um caminho onde não vale a pena insistir naquele caminho. Mas é preciso, acima de tudo, que aqueles que já têm impregnado em si o amor de Cristo, a humanidade, façam transcender, mas sem querer convencer. Às vezes tentamos convencer o outro. Isso é uma ideia errada e equivocada. Somos instrumentos nas mãos de Deus, quando meu agir, meu comportamento, meu expressar, chega às outras pessoas. Quando sou capaz de perceber que um jovem está trilhando um caminho escuro, eu não vou condenar. Muitas vezes vivemos numa sociedade que aponta o dedo, que condena. Bata no ombro daquela pessoa. Busque uma conversa, um diálogo. Diga que está do lado dela. Muitas vezes a pessoa não precisa de perguntas, precisa apenas que você abra o ouvido para escutá-la. Escute suas mazelas, suas fraquezas, suas fragilidades. É impossível pensar em salvar a humanidade inteira, seria uma pretensão, porque só Jesus Cristo pode. Mas se você conseguir salvar uma pessoa do mundo das drogas, se eu puder ajudar uma pessoa, se eu puder tirar uma pessoa do caminho do mal, já é uma grande coisa. Se você libertar aquela pessoa da violência familiar, quantos irmãos nossos descobrirão o amor de Deus? Em uma das celebrações que presidi, de um funeral, estava presente uma irmã evangélica. Depois da celebração, um membro da comunidade me disse: ‘irmão, aquela irmã se sentiu tão tocada, tão amada, que decidiu voltar para a Igreja’. Não é a intenção de tentar convencer a pessoa, mas a forma como você a acolhe. Você acolhe o drogado, a prostituta, o homossexual, ou seja, tem abertura. A pessoa precisa sentir-se amada. Você precisa sentir-se amado. O amor supera tudo. O amor supera o ódio. A acolhida, o abraço. Precisamos mudar essa mentalidade. Quando olhamos para o mundo, perguntamos: onde está Deus? Deus está ali. Mas eu que tenho que trazer Deus para o meu meio, para o meu grupo de amigos, para o diálogo. Não vamos viver num mundo sem problemas. Os pais querem criar os filhos no super protecionismo. Temos que aprender a lidar com o luto, a derrota, com o não. Se eu digo para a criança apenas sim, no dia que ela receber um não, ficará frustrada. Temos que aprender a lidar com a nossa humanidade. Qual é a minha humanidade? Onde está minha fragilidade? Não tenho que querer mudar o outro, mas o que posso mudar em mim para que o outro faça diferença na minha vida. Então, esse é o processo para a chave da felicidade. Também encontramos na Igreja pessoas que te criticam, encontramos incompreensões, julgamentos, pessoas que te excluem, que falam mal de você. Se você faz 99 ações boas, mas faz uma equivocada, as 99 vão para o chão. Temos que ter muito cuidado na questão dos nossos julgamentos, na questão de lidar com o outro.”
Mensagem final
“Acho que a mensagem é gratidão. Não só ao povo de Dom Basílio, mas à Diocese de Livramento, muitos de Bom Jesus do Taquari, à Paróquia de Rio de Contas, inclusive Arapiranga. Dizia Dom Armando que eu estava me apaixonando por Arapiranga, porque várias vezes estive por lá presidindo o tríduo pascal. Gratidão ao povo de Dom Basílio. Um povo amado, querido, simples. Sempre fui muito acolhido, muito amado pelo povo. Sempre procurei ser uma pessoa muito simples, para o povo, de acolher, o pobre, o rico, a criança, o jovem, em qualquer lugar que seja. A acolhida, que sempre tive também por parte da comunidade, do nosso povo. Uma palavra de gratidão, que eu não poderia deixar de dizer, especialmente ao Padre Rinaldo, que foi aquele que me acolheu, que me apoiou, que me incentivou, que foi um irmão na caminhada. Ao padre Marcelo, na Paróquia de Bom Jesus no Taquari. Dom Armando que sempre foi aquele pai, sempre acolheu, apoiou, incentivou. A todos da paróquia de São João Batista, a todas as comunidades. Vai comigo uma bagagem. Há noites que já não consigo dormir, tranquilo, pensando na saída. Já até pensei que minha saída será um pouco escondida, para não ter que me despedir das pessoas, porque sei que vai doer muito, a questão da família, do apego. Cumpri minha missão. Meu pai dizia ‘filho não me deixe’ e até o último instante eu estive ao seu lado. Fui fiel aos meus pais, seja em vida e até o dia em que Deus os chamou. Não me arrependo de momento nenhum. Agradeço a Deus minha formação, o que eles me deram, e que contribuí até o final. Mas o deixar, traz marcas. Dá saudades dos amigos, das famílias, das comunidades. Contudo é preciso porque amo minha vocação. Sou feliz como religioso, como consagrado. Não sou um religioso perfeito, tenho minhas falhas. Não peçam um religioso perfeito, não peçam um padre perfeito, um religioso santo, um padre santo. Não existe. Mas estamos em um processo de santidade. Que todos possam rezar por mim na minha busca pela minha santidade, na minha busca por ser melhor. E espero ter sido um sinal da presença de Deus na vida de tantas pessoas, seja nas celebrações de exéquias, nas celebrações nas comunidades, nas festas dos padroeiros nas visitas das famílias, no hospital ou para aqueles que necessitaram e que buscaram. Não levo mágoa de ninguém, nem ressentimento. Aquilo que não foi feito para o bem, Deus toma conta. Posso resumir com uma única palavra. Gratidão! Agradecendo ao Sudoeste Total por esta oportunidade de entrevista. Que Deus te abençoe hoje e sempre!”, finalizou.



